20 Outubro, 2026
A crua convergência dos salários para o Salário Mínimo Nacional
Governo e patrões têm o mesmo objetivo.

Neste estudo, Eugénio Rosa demonstra que os trabalhadores portugueses estão cada vez mais longe da média salarial praticada na União Europeia.

Nem mesmo com o aumento de todos os bens essenciais e do facto da inflação ter já “comido” a atualização salarial imposta em 2026 parece fazer alterar a vontade do governo de continuar na senda de empobrecer os trabalhadores da Administração Pública.

Na reunião de 19 de outubro, inaceitavelmente, o Ministro das Finanças referiu que existe um acordo plurianual (Frente Comum não assinou) e que são esses valores que estão inscritos na proposta de Orçamento do Estado para 2027 e, pretendeu ludibriar os dirigentes sindicais invocando as progressões que têm ocorrido, nas diferentes carreiras.

Aumentos salariais é diferente de massa salarial. As progressões e as promoções nas carreiras deveriam ser uma preocupação do governo como forma de retenção dos trabalhadores, incluindo, dos enfermeiros e, o que se constata é que há dois anos que não abrem concursos de desenvolvimento na maioria das carreiras da administração pública. E, para que todos possamos constatar a realidade, nua e crua, dos salários dos trabalhadores portugueses, o estudo do Economista Eugénio Rosa.

Na Administração Pública as remunerações estão mais próximas do salário mínimo nacional (SMN). No setor privado, 2 189 772 trabalhadores recebem até 1000€.

Os patrões e governos têm como objetivo fazer convergir os salários para o SMN.

Para avaliar a situação dos trabalhadores da Administração Pública vamos comparar a evolução da sua remuneração média mensal (RBMM) e o do seu Ganho Médio Mensal (GMM), que inclui tudo aquilo que o trabalhar recebe (ilíquidos) entre 2011 e em 2026 com o salário mínimo nacional. Os dados, oficiais, são da Direção Geral de Administração e Emprego Público (DGAEP)

Trabalhadores das carreiras gerais da Administrações Pública com salários mais próximos do Salário Mínimo Nacional

Vamos começar por analisar a situação dos trabalhadores das designadas carreiras gerais. O quadro seguinte mostra a evolução da sua situação desde 2011 até 2026.

Ver o quadro 1 – remuneração média mensal (RBMM) e Ganho Médio Mensal (GMM) Brutos – Carreiras Gerais – 2011 e 2026
Nota: RBMM: Remuneração Base Média Mensal; GMM: Ganho Médio Mensal (inclui tudo o que o que trabalhador recebe – senhas de almoço, horas extraordinárias, etc). Fonte: DGAEP – SIOE (20 julho 2026)

Entre 2011 e 2026, um Técnico Superior viu a sua Remuneração Base Média Mensal (RBMM) diminuir de 3,5 vezes para apenas 2,2 vezes do Salário Mínimo Nacional, e o Ganho Médio Mensal (GMM) reduziu de 3,8 vezes para apenas 2,4

As outras carreiras profissionais registaram diminuições importantes, como mostra o quadro.

A de assistente operacional, cuja RMBM era, em 2011, 30% superior ao SMN, em 2026, é apenas 10%.

Para agravar a sua situação, os quatro primeiros níveis remuneratórios correspondiam, em 2011, a quatro salários distintos. Desde 2019, esses níveis ?caram absorvidos por uma única remuneração mínima.

O aumento do salário de entrada, sem uma valorização proporcional dos níveis seguintes, eliminou diferenças salariais que existiam e que compensavam a antiguidade e a experiência de muitos trabalhadores.

Interessa ainda acrescentar que, entre 2011 e 2026, o poder de compra da RBMM do Técnico Superior diminuiu 11,9% e do Assistente Técnico também diminuiu em -1,9%.

A aproximação dos salários dos professores ao Salário Mínimo Nacional foi grande entre 2011 e 2026

Os dados divulgados pela DGAEP mostra o que se verificou no ensino público que causou as dificuldades que enfrenta.

Ver quadro 2 – Remuneração Base Média Mensal (RBMM) e Ganho Médio Mensal (GMM) – PROFESSORES, em 2011 e em 2026

Entre 2011 e 2026, o número de vezes que a Remuneração Base Média Mensal (RBMM) bruta de um docente universitário é superior ao Salário Mínimo Nacional (SMN) reduziu-se de 7,3 vezes para apenas 4,5 vezes, a de um docente do ensino básico e secundário diminuiu de 4,2 vezes superior ao SMN para apenas 2,9 vezes superior, e a de um inspetor de 4,4 vezes para apenas 2,7 vezes superior. Também entre 2011 e 2026, o poder de compra da Remuneração Base Média Mensal (RBMM) ilíquida dos docentes universitários diminuiu em -14,6%, a dos docentes do Politécnico reduziu-se em -10,5%, a dos professores do ensino básico e secundário caiu em -5,3%, e a dos inspetores em -14,8%.

Perante estes dados ?ca claro a falta de professores.

Os profissionais de saúde, nomeadamente os médicos também sofreram uma forte redução em relação ao SMN

Os dados do quadro 3 mostram como os sucessivos governo têm tratado os pro?ssionais do SNS, e torna clara a razão por que faltam pro?ssionais de saúde no SNS, por que muitos médicos (quase metade dos que trabalham no SNS) e também muitos enfermeiros se vêm obrigados a trabalhar em hospitais privados para completar o seu rendimento, sujeitando à exploração e à pressão dos patrões do setor de saúde privada para obter receitas, promovendo assim o negócio privado lucrativo de saúde, com o seu trabalho altamente quali?cado mas muito mal pago.

Ver o Quadro 3- – Remuneração Base Média Mensal (RBMM) e Ganho Médio Mensal (GMM) – no SNS, em 2011 e em 2026

Entre 2011 e 2026, o número de vezes que a Remuneração Base Média ilíquida de um médico é superior ao Salário Mínimo Nacional diminuiu de 5,7 vezes para apenas 3,9 vezes

A do enfermeiro baixou de 2,8 vezes para 2,3 vezes

A do Técnico Diagnóstico caiu de 2,6 vezes superior ao SMN para 2 vezes, e a do Técnico superior de saúde passou de 4 vezes para apenas 2,4 vezes

Entre 2011 e 2026, a RBMM dos médicos perdeu 6% do seu poder de compra.

Para os sucessivos governos, o trabalho dos profissionais de saúde é cada vez mais comparável com o de trabalhadores não diferenciados.  

E assim se destrói, também, o SNS.

Os serviços de defesa e de segurança do país têm sido desconsiderados pelos sucessivos governos

Mais que palavras, a linguagem fria e objetiva dos números revela como estes profissionais têm sido tratados pelos governos.

Mais que palavras, a linguagem fria e objetiva dos números revela como estes profissionais têm sido tratados pelos governos.

Ver quadro 4 – Remuneração Base Média Mensal (RBMM) e Ganho Médio Mensal (GMM) – DEFESA E SEGURANÇA  em 2011 e 2026

Também as Forças Armadas e de Segurança, não têm tido, a devida consideração. As suas remunerações médias ilíquidas estão cada vez mais próximas do salário mínimo nacional como mostram os dados da DGAEP, no quadro 4.

2,3 milhões de trabalhadores do setor privado com o salário mínimo nacional ou próximo, em junho de 2026

O seguinte quadro mostra uma realidade que se procura esconder ou se tenta negar, mas a verdade acaba por se impor.

Ver o Quadro 5- Os trabalhadores do setor privados repartidos por escalões de remunerações ilíquidas em junho de 2026

2,18 milhões de trabalhadores recebiam, em junho deste ano, até 1000€ ilíquidos por mês, o que signi?ca que a esmagadora maioria recebe o salário mínimo nacional. Se se deduzir os 11% para Segurança Social e 3,8% de IRS ficam apenas com cerca 852 euros líquidos. É esta a quantia que 2,18 milhões de trabalhadores “levam para casa” para viver.

Se fizermos as mesmas contas para aqueles que recebem 1500€ ilíquidos por mês, 1,35 milhões de trabalhadores, ?cam apenas com cerca de 1141,5€ líquidos “para viver”.

Apesar deste cenário, o governo em nome das “Contas Certas” recusa-se a tomar medidas para pôr cobro aos enormes lucros das petrolíferas à custa dos consumidores (famílias e empresas).

Mas não só, o governo recusa-se a tomar medidas que garantam o direito à habitação, recusa-se a garantir efetivos aumentos salariais, continua a dar benefícios fiscais às grandes empresas (diminuição do IRC), isenção de IMI aos fundos imobiliários, entre outros.

É para exigir mais e melhores salários que a Frente Comum realiza um plenário, a 27 de outubro, em frente à Assembleia da República, data da votação da proposta de Orçamento do Estado, na generalidade (antes de baixar à respetiva comissão)

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