31 Julho, 2025
Saúde não é mercadoria
Programa do Governo para a Saúde é um conjunto de propostas, mas nada sobre o que importa para os portugueses e para os profissionais que trabalham no SNS!

É notória a estratégia de aprofundar o caminho da privatização.

Vejamos a seguinte analise de comparação:

Programa do governo

Faz um balanço muito positivo das medidas adotadas no mandato anterior: aumento do número de consultas, cirurgias, do Plano de Emergência, consultas nos cuidados de saúde primários, etc.

Análise/ preocupações

Tem propostas de reforço do SNS. Não!

A maioria das medidas apontam para a externalização e para a entrega da gestão clínica aos setores privado e social.

Para reforçar o SNS, exigimos:

  • Fim do subfinanciamento e das cativações das instituições
  • Mais profissionais e mais valorizados
  • Mais equipamentos e inovação
  • Mais autonomia de gestão
  • Gestão democrática das organizações

Programa do governo

Acusa a implementação, sem debate prévio, das Unidades Locais de Saúde, mas anunciou e prevê, sem qualquer debate as:

  • Parcerias público-privadas, em 5 ULS (inclui os respetivos centros de saúde)
  • Parcerias publico-sociais
  • USF modelo C
  • Novo modelo Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias (SINACC)
  • Urgências “regionais”

Análise/ preocupações

Não existe nenhum esclarecimento sobre:

  • Manutenção ou alteração da relação contratual de quem trabalha naquelas ULS
  • Horários de trabalho
  • Manutenção dos direitos incluindo aplicação das Carreiras profissionais.

Perspectiva não é aumentar as respostas dentro do SNS mas externalizar para os setores privado e social consultas e cirurgias “Urgências Regionais” com equipas partilhadas entre hospitais é mais um sinal da indisponibilidade para contratar e valorizar as carreiras como forma de atrair e reter profissionais, preferindo o encerramento de serviços.

Programa do governo

Propõe a agilização da gestão das instituições públicas de saúde, ou seja, a entrega da gestão clínica aos parceiros privados fazendo “tábua rasa” de todas as propostas contínua e sistematicamente apresentadas por várias organizações.

Análise/ preocupações

Estão anunciadas 5 PPP (para já) em 5 ULS (hospitais e centros de saúde). A concretizar-se, estamos perante um enorme negócio para os grandes grupos económicos que ficariam a gerir todo o circuito de consultas, tratamentos, consultas de especialidade, intervenções cirúrgicas, exames complementares de diagnóstico e reabilitação.

Programa do governo

Valorizou a grelha salarial da carreira de enfermagem, de forma faseada até 2027.

Análise/ preocupações

É insuficiente e continua a ser uma das razões dos pedidos de exoneração; Soluções para especialistas de outras carreiras não se aplicam aos enfermeiros.

Programa do governo

Plano motivacional dos profissionais (…)

Necessário reter profissionais (…)

Conciliação da vida pessoal e profissional (…)

Rever o modelo de gestão de recursos humanos.

Análise/ preocupações

Não há uma única linha sobre contratação ou de um Plano com esse objetivo de curto, médio e longo prazo.

Não apresenta medidas para a retenção de enfermeiros.

Fala em flexibilizar horários sem qualquer concretização   Mantém-se a nossa exigência de consagrar um regime de dedicação exclusiva voluntária e remunerada (acréscimos de 50% sobre o salário base).

Programa do governo

Propõe alterar a atual Lei de Bases da Saúde, publicada em 2019, e substituir por uma Lei de Meios para o SNS que aponta para um SNS fornecedor de recursos e regulador, diminuindo a capacidade de prestação em favor do privado e do setor social.

Análise/ preocupações

Tudo aponta para um SNS fornecedor de recursos e apenas regulador. As últimas noticias sobre o acordo feito com o diretor de serviço de oftalmologia quando o hospital de Braga era uma PPP demonstra que a ARS Norte nunca conseguiu regular as negociatas, com prejuízo para o erário público.

Programa do governo

Inclusão nos Sistemas Locais de Saúde as instituições privadas e sociais.

Análise/ preocupações

A Lei de Bases da Saúde determina que só as entidades públicas seriam incluídas.

Programa do governo

Propõe que os profissionais do SNS façam a gestão clínica dos utentes do setor social no âmbito da Rede dos Cuidados Continuados e paliativos;

Propõe o alargamento dos rastreios de vários tipos de cancro.

Reativar os Programas nacionais de prevenção do suicídio e de saúde mental.

Reforço das equipas de apoio domiciliário Desenvolvimento das Unidades de Cuidados na Comunidade.

Análise/ preocupações

Com que profissionais de saúde?

É importante a referência às UCC e exige-se a harmonização das condições remuneratórias entre todos os enfermeiros que exercem funções nas diversas instituições do SNS (serviços e unidades funcionais).

Programa do governo

Propõe transformar o financiamento em saúde com base no modelo de Saúde Baseada em Valor (Value-Based Healthcare), terá que especificar como pretende fazer a monitorização deste “valor” quando é conhecida a falta de transparência dos setores privado e social relativamente a vários indicadores.

Análise/ preocupações

O “valor dos cuidados de saúde” é a melhoria nos resultados de saúde de um doente tendo em conta o custo da obtenção dessa melhoria. A evidência demonstra que este tipo de financiamento pode levar a distorções no acesso a cuidados de saúde. São conhecidas as recusas de procedimentos a doentes tendo em conta o valor desse procedimento e a idade do doente, incluindo no SNS inglês.

Programa do governo

Direito à greve.

Análise/ preocupações

A greve é um direito constitucional e o último recurso para lutarmos pelas nossas justas reivindicações. Existem propostas de partidos políticos (Iniciativa Liberal e Chega) para que, em alguns setores de atividade, seja proibido fazer greve, incluindo a Saúde.

Em síntese, o Governo apresenta um conjunto de propostas, mas sobre o que importa para os portugueses e para os profissionais, nada!

Não apresenta quaisquer metas de saúde para a população, nem projeções.

As metas para o Sistema Nacional de Saúde (não para o Serviço Nacional de Saúde) são inespecíficas, não quantificadas, não mensuráveis, não atingíveis (desde logo pela falta de recursos humanos).

Nada sobre planeamento, execução, monitorização e avaliação do Programa do Governo do sistema de saúde, do Serviço Nacional de Saúde e dos ganhos em saúde em Portugal.